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O tamanho importa nas cidades: estudo global revela quais espécies vencem e quais perdem com a urbanização
Análise de mais de 30 mil espécies em todo o planeta mostra que as cidades funcionam como um filtro biológico: poucas espécies prosperam em ambientes urbanos, enquanto a maioria é excluída. O tamanho corporal emerge como um fator decisivo...
Por Redação MaisConhecer - 26/06/2026


Imagem: Reprodução


Por trás da expansão acelerada das cidades esconde-se uma silenciosa reorganização da vida na Terra. Um estudo internacional publicado nesta sexta-feira (26), na revista científica eLife, por uma equipe liderada pelo ecólogo Corey T. Callaghan, da Universidade da Flórida, revela que a urbanização está favorecendo apenas um pequeno conjunto de organismos capazes de explorar o ambiente urbano, enquanto a maioria das espécies é progressivamente afastada das cidades. O trabalho analisou mais de 30 mil espécies de plantas e animais, tornando-se a maior investigação já realizada sobre a relação entre biodiversidade e urbanização.

A pesquisa, intitulada The urban tree of life: synthesizing relationships between body size and urban affinity, reuniu cientistas da Universidade da Flórida, Universidade de Yale, Universidade de Helsinque, Universidade de Leipzig, Vrije Universiteit Brussel e outras instituições internacionais. Os autores utilizaram cerca de 1,4 bilhão de registros de biodiversidade provenientes do banco de dados Global Biodiversity Information Facility (GBIF), além de imagens de satélite que medem a intensidade das luzes noturnas como indicador do grau de urbanização.

“O que observamos foi um padrão extraordinariamente consistente em praticamente todas as regiões do planeta: muitas espécies evitam as cidades e apenas poucas se tornam verdadeiras exploradoras do ambiente urbano”, afirma Callaghan no artigo.


Quadro conceitual que ilustra os mecanismos hipotéticos que ligam a afinidade urbana às mudanças interespecíficas no tamanho corporal.
Esses fatores incluem restrições de dispersão e mobilidade sob fragmentação de habitat 44 , 45 , termofilia e a regra temperatura-tamanho impulsionadas pelo efeito de ilha de calor urbana 15 , 30 , competição e sobrevivência com viés de tamanho 94 , 95 e preferências humanas com viés de tamanho 64. A fragmentação urbana dos recursos de habitat pode selecionar para maior mobilidade (por exemplo, borboletas maiores) ou menor mobilidade (por exemplo, sementes maiores), dependendo da severidade do isolamento...

Uma nova lei ecológica das cidades

Os pesquisadores propõem um novo conceito, denominado Species Urbanness Distribution (SUD) — ou Distribuição de Urbanidade das Espécies. O princípio é semelhante ao das clássicas distribuições de abundância em ecologia: existem muitas espécies raras e poucas muito comuns. Nas cidades, o fenômeno se repete de outra forma: há muitas espécies que evitam ambientes urbanos e apenas um pequeno grupo que prospera intensamente neles.

Segundo os autores, esse padrão apareceu de forma consistente em diferentes continentes, biomas e grupos taxonômicos. Entre as espécies que se tornam “hiperexploradoras” do ambiente urbano estão organismos generalistas, oportunistas e frequentemente associados à presença humana, como pombos, ratos e algumas espécies de insetos.

“Os traços que permitem que determinadas espécies sobrevivam e prosperem nas cidades parecem estar distribuídos de maneira muito desigual na árvore da vida”, escrevem os autores.

O tamanho corporal influencia o sucesso urbano

A segunda grande descoberta do estudo envolve o papel do tamanho corporal. Os pesquisadores investigaram se organismos maiores ou menores possuem maior afinidade com ambientes urbanos.

Para isso, foram analisadas 17.722 espécies pertencentes a 371 famílias taxonômicas.

O resultado mostrou que não existe uma regra universal.

Nas plantas, espécies maiores — especialmente árvores e arbustos de grande porte — tendem a apresentar maior afinidade com as cidades. O efeito médio observado foi de 0,64, três vezes superior ao encontrado nos animais (0,21).

Entre as famílias vegetais, 83% apresentaram uma relação positiva entre maior porte e maior sucesso urbano.


“Espécies vegetais maiores podem se beneficiar das temperaturas mais elevadas, do aumento da disponibilidade de dióxido de carbono e de nutrientes presentes nos ambientes urbanos”, explicam os autores.

Além disso, fatores culturais parecem desempenhar papel importante. A preferência humana por árvores ornamentais e ruas arborizadas pode estar contribuindo para a predominância de plantas maiores nos centros urbanos.

Nos animais, a história é muito mais complexa

Entre os animais, a relação entre tamanho corporal e urbanização mostrou-se altamente variável.

Dos 278 grupos familiares analisados, apenas uma fração apresentou relações estatisticamente fortes entre tamanho e afinidade urbana.

- 58% das famílias animais apresentaram relações positivas;
- 42% apresentaram relações negativas;
- Apenas 17% das famílias mostraram evidências robustas de que o tamanho corporal influencia diretamente o sucesso urbano.

As diferenças refletem as distintas pressões ecológicas impostas pelas cidades.

Grandes aves de rapina, por exemplo, tendem a ser prejudicadas pela urbanização porque necessitam de extensos territórios de caça e sofrem com a fragmentação do habitat.

Já grupos de borboletas e mariposas frequentemente favorecem indivíduos maiores, que possuem maior capacidade de deslocamento entre áreas verdes isoladas.

Insetos como besouros apresentam tendência oposta. O chamado efeito de ilha de calor urbana — o aumento da temperatura nas cidades em relação às áreas rurais — parece favorecer espécies menores, que possuem menores custos metabólicos.

“Os ambientes urbanos podem produzir desequilíbrios ecológicos ao favorecer predadores maiores e, simultaneamente, presas menores, criando descompassos nas cadeias alimentares”, alertam os pesquisadores.

Um planeta cada vez mais urbano

As conclusões tornam-se ainda mais relevantes diante das projeções demográficas. Segundo os autores, as áreas urbanizadas do planeta poderão se expandir entre duas e seis vezes ao longo do século XXI, intensificando as pressões sobre a biodiversidade global.

Para Thomas Merckx, da Vrije Universiteit Brussel e coautor do estudo, compreender quais espécies conseguem persistir nas cidades é fundamental para orientar políticas públicas de conservação.

“Predições baseadas em características funcionais das espécies podem ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes para promover a biodiversidade em ambientes urbanos”, destaca o artigo.

Os pesquisadores defendem que os novos índices de afinidade urbana podem servir como ferramentas práticas para avaliar projetos de restauração ecológica, medir a integridade de áreas verdes e orientar o planejamento de cidades mais amigáveis à biodiversidade.

A principal mensagem do estudo, contudo, é clara: as cidades não são ecossistemas neutros. Elas funcionam como um poderoso filtro evolutivo, selecionando alguns vencedores e produzindo inúmeros perdedores.

Em um mundo cada vez mais urbano, compreender esse processo pode ser decisivo para definir quais formas de vida conseguirão compartilhar o futuro das cidades com os seres humanos e quais poderão desaparecer silenciosamente de nossos horizontes.


Referência
Corey T Callaghan, Diana E Bowler, Vaughn Shirey, Brittany M Mason, Laura H Antão, Ingmar StaudeJohn H Wilshire, Thomas Merckx. 2025 A árvore da vida urbana: sintetizando as relações entre o tamanho corporal e a afinidade urbana eLife 14 : RP109047. https://doi.org/ 10.7554/eLife.109047.2

 

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